14, Dezembro A reler, sem a mínima sensaUcirc;çUcirc;ão de uma plenitude desejada, os cadernos deste diário, ultimamente de registos tUcirc;ão esporádicos e, desde o seu início, tUcirc;ão desprovidos de referUcirc;ªncias ao meu quotidiano, o que o descaracteriza por completo. E interrogo-me: como corrigir a grande insatisfaUcirc;çUcirc;ão em mim gerada por aquilo que aqui vou lendo, se nem a quantidade de anotaUcirc;çUcirc;ões de diferentes dias agora eliminadas se revela a suficiente para ser uma soluUcirc;çUcirc;ão para ela? Continuarei insatisfeito, continuarei sem saber como me corrigir adequadamente. Corrigir no sentido de nUcirc;ão me encontrar tUcirc;ão simulado pelo que de mim nUcirc;ão revelo. __________ Escrevo para me revelar ou para me ocultar? De qualquer modo, seja qual for a consequUcirc;ªncia do acto de escrever, nunca servirá de factor demonstrativo de eu estar, nele, no lado da realidade. __________ O que efectivamente escrevo nUcirc;ão sUcirc;ão todas as frases que tenho escrito nestes cadernos. O que escrevo é o ritmo e a vibraUcirc;çUcirc;ão interna do corpo escrevendo fora destes cadernos, o corpo evitando as armadilhas que o assediam, ou resistindo aos golpes desferidos sobre a nuca, às imposiUcirc;çUcirc;ões legalizadas pela vigilUcirc;ância das armas encostadas ao fUcirc;lego, é o meu corpo sentindo o chamamento insustível, quer para o desejo de uma claridade e de um clima que sei ainda inexistentes, mas a tornar concretos e vivíveis, quer para a vontade de diluir sob a pele a aragem do horizonte, subterrado, mas a libertar. O que efectivamente escrevo é também o desespero, o desUcirc;ânimo cíclico, a doenUcirc;ça alicerUcirc;çada no sentimento de solidUcirc;ão, e é também a revolta, a raiva, e a exasperaUcirc;çUcirc;ão, por nUcirc;ão ser capaz de destruir tudo o que me cerca, tudo o que tenta amordaUcirc;çar-me e algemar-me à concavidade de uma parede intocável, tudo o que me tem mantido separado, pelo menos pelo seu lado exterior, do que nUcirc;ão é (e que deveria ser) a minha vida. O que escrevo nestes cadernos, tal como o que poderia escrever mas nUcirc;ão escrevo nestes cadernos, nUcirc;ão passa de um fingimento que me permite dissimular o que efectivamente escrevo fora destes cadernos.
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